Como tudo em minha vida, os últimos 365 dias podem ser descritos como os mais desafiadores dela. E, revendo o que aconteceu comigo nos últimos tempos, creio que me tornei uma pessoa melhor, modéstias à parte.
Há exatamente um ano, pessoas foram entrando em minha vida e, lentamente, fui abrindo um espaço à elas que, avassaladoramente, me acolheram com paciência, carinho e apoio. Tudo o que eu mais precisava. Foi nesse tempo, também, que sofri por motivos que jamais pensei que sofreria. Humilhações e constrangimentos que não desejo à ninguém. Mas que, com elas, caí na realidade e percebi que ninguém é tudo o que parece ser e comprovei a tese que diz que, quando quisermos conhecer os homens, basta darmos poder à eles.
Por outro lado, deixei uma vida toda pra trás. Uma vida, numa cidadezinha minúscula de peculiaridades particulares. Uma vida de liberdade, sem repressões, gostosa. Além disso, deixei minhas riquezas e, delas, sinto uma saudade irremediável.
Quando saí de lá, redescobri minha fé. Aprendi que Deus está com a gente, mesmo virando as costas para Ele. E, hoje, sei o que quer dizer “temor à Deus”, pois os fatos me mostraram que Ele é o Senhor de todas as razões e, eu, na minha inteligência ignorante, não sabia disso. Não sabia ou não me permiti saber. E eu assumo este grande pecado porque a minha fé de hoje, graças à Deus, me faz forte.
Também aprendi a valorizar dois seres que, antes, tinham, obviamente, uma importância, mas que eu não valorizava. Senti falta da proteção, do abraço, do cheiro, da comida e do amor que só meus pais sabem me dar. Falta dos agrados que, indiretamente, me faziam – e continuam me fazendo -, e que eu, por não valorizar esses momentos, nem percebia. Aprendi a respeitá-los mais do que já respeitava e, hoje, qualquer discussão me deixa profundamente chateado, por saber que, infelizmente, nossos momentos juntos são tão raros pra serem desperdiçados com picuinhas. Como eu não consegui sentir todo esse amor antes? E, convenhamos, amar quem nos ama é um tarefa tão simples que nos faz tão feliz...
No primeiro texto que escrevi aqui, disse que não gostava de fazer uso de clichês, mas, nesse caso, não estou conseguindo encontrar outra expressão a não ser: “Comecei a valorizar as coisas simples da vida”. E, de fato: passei vontade lembrando do sabor da comidinha da minha mãe, senti vontade de tomar um bom chimarrão – símbolo máster da minha cultura – à sombra da minha casa, lendo o jornal de maior circulação no estado, saudade de encontrar, na praça da cidade, casualmente, todo meu grupo de amigos e, dali, rir como se fôssemos felizes, absortos por todas as histórias que contávamos - ou inventávamos.
Falando em amigos, impossível não citá-los. Alguns, impossível esquecê-los. Amigos são pessoas tão preciosas na minha vida que me dedico à eles, à vida deles, como se fosse a minha. Decepcionar-me com eles, agora que já não faço parte e os vínculos que tínhamos estão se alargando, é um dos trechos pedregosos que esses meus 365 dias me obrigaram a passar. Sinceramente, acho que eles nem sabem a falta que eu posso sentir deles. É difícil citar nome por nome, mas cada um tem um significado muito especial. Uns me dando muitos orgulhos, outros me fazendo rir, outros me consolando, outros me puxando a orelha, outros me tirando da fossa. Tem aqueles que me procuram só pra ter alguém pra falar, outros que me procuram só porque precisam de mim e os que me procuram porque se preocupam comigo.
É difícil desabituar-se. Sair de sua zona de conforto. Partir. Pra mim, pelo menos, continua sendo. Retirar esses vínculos ainda é muito sofrido e despedir-me desses elementos tão essenciais em minha vida, só poderiam ser por uma grande obstinação. E, por isso, digo, repito e insisto: Minha vida é lá. Meu futuro é aqui!
Hoje é 15 de março. Estou há um ano longe de casa, aconchego de minha família. Longe de pessoas que me fazem bem e feliz. Eu não sabia que eu era tão feliz. Foi preciso perder pra aprender a dar valor (mais um clichê). E perdas, de qualquer espécie, não são positivas. Se não, chamar-se-iam ganhos. Mas não perdas.
Mas, contrariando tudo isso, ganhei experiência, maturidade e amigos. Que, sem desmerecer ninguém, me dão a amizade que, das raras vezes que eu não encontrei, me dão aquilo que eu mais preciso: paciência!
Agora, um ano depois, é tempo de acreditar e esperar pelos próximos 365 dias.