Minha colega, que aqui chamarei de Alice, tem três filhas. A mais velha, com 12 anos, está experimentando os primeiros conflitos da puberdade. Além do desenvolvimento biológico, Alice me contou que a menina recebeu um convite de um namoro e, como mãe, tomou uma atitude com a garota que me sensibilizou. Disse ela à filha: “Peça para que o rapaz venha até mim para conversarmos a respeito”. Em seguida, Alice, em tom confidencial, refletiu comigo e acabei concordando: “Se for caso sério, ele tratará de vir e conversaremos”. No decorrer da conversa, Alice me disse que, de uns dias para cá, tem percebido a menina mais vaidosa. Por fim, perguntei qual era a sensação que tinha quando via sua filha passando por situações como essa. Foi o suficiente para que eu me encantasse pela sua história e, principalmente, pelo amor que Alice deposita na filha. Respondeu-me: “Dá uma coisa ruim na gente. Uma tristeza, sabe? Parece que vou perdê-la”.
Quero começar, com a história de Alice, a minha homenagem à minha mãe e espero que você, leitor, possa se identificar e se inspirar nela para preparar a homenagem à sua.
Ser mãe só pode ser uma benção de Deus. Uma missão [quase] impossível que as mulheres são portadoras. Mais uma, na verdade. Mas o que quero, realmente, é provocar um sentimento de responsabilidade. Sim, pois somos causa, culpa e conseqüência de um amor infindável que ela nos devota.
Passamos por nove meses ligados, literalmente. Nesse período, mal a conhecemos e ela já nos ama. Esse cordão umbilical não apenas nutre nossas necessidades fisiológicas, mas parece ser o verdadeiro elo que transmite todo o carinho. É o início de tudo, mas ela já nos cobre com sua aura maternal. Nesses meses que passamos unidos, somos capazes até de desconfigurar seu próprio corpo e ela nos dá ainda mais o seu amor. Isso pode parecer confuso: “Como pode alguém me amar tanto, mesmo eu a prejudicando em certos momentos?”. Mas esse questionamento vai contra qualquer raciocínio lógico ou abstrato. É, simplesmente, inexplicável.
Depois, começamos a nos desenvolver. É chegada a hora de darmos os primeiros passos, adquirimos fala e ela está ali, sempre por perto, vigiando o que fazemos, protegendo-nos de todos os perigos.
Mais a diante, damos início à nossa vida escolar. Passamos a assumir algumas obrigações, mas não deixamos de contar com a ajuda dela. Ao chegarmos em casa, ela nos espera com o lanche prontinho. E essa é a lembrança que, querendo ou não, guardaremos para sempre: o cheio e o sabor dos bolos preparados por ela. À noite, retomamos a lição da cartilha. Já na cama, ela nos conta histórias cheias de fantasia, com cavaleiros corajosos, heróis dispostos a salvar a princesa presa no alto da torre do castelo num reino muito distante dali. Então, pegamos no sono. Ela vai para sua noite de descanso, não sem antes nos cobrir e nos dar um beijinho suave na testa. Durante a madrugada, vai até o nosso quarto umas duas ou três vezes para vigiar nosso sono ou, então, pelo simples fato de apreciar nossa respiração tranqüila e imaginar o que estamos sonhando.
Continuamos crescendo. As obrigações vão aumentando. E, com elas, vamos perdendo a inocência (afinal, conseguimos entender melhor aquela história das cegonhas e de onde vêm os bebês, né mãe?) e vamos recebendo com mais clareza os valores que ela nos transmitiu e, agora, você começa a ser punido por eles.
Também começamos a nos sentir donos do mundo e, o que é pior: da nossa própria vida. Daí, surgem os conflitos, inevitáveis. As velhas palmadinhas dão vazão à sérias agressões verbais. Nessas horas, deixamos, insensatamente, que as nossas emoções destruidoras nos dominem. Trocamos as mais doídas farpas e deixamos que os espinhos sobressaiam à beleza das rosas. Esquecemos de valorizar aquela pessoa que tantas vezes curou nossas feridas e nos achou o aluno mais lindo da escola inteira – mesmo não sendo de verdade. São nessas horas que cometemos o maior dos pecados, pois insistimos na frase: “Que culpa tenho eu se não pedi pra nascer?”. À propósito, quem pediu? Mais tarde, vamos entender que o maior presente que uma mãe dá ao seu filho é o dom da vida, pois ela é o único ser que poderia nos dar essa dádiva, essa experiência tão louca. Entendemos que o amor, sem igual, pelo qual ela nos entrega, já é construído a partir daí.
Nessa fase, também, renegamos toda e qualquer demonstração explícita e pública de carinho: um beijo, um passeio de mãos dadas, ser chamado de “meu bebê” na frente de todos os seus amigos.
Mas, só iremos nos dar conta da importância de tudo isso quando o destino vir. Ele abrirá nossas mãos com um sopro voraz e nos colocará distante dela. Então, tudo fará mais sentido. Sentiremos a necessidade de alguém como ela disposta a te por no colo assim que você sofrer suas frustrações e decepções. Precisaremos de nossas roupas limpas e perceberemos que elas nunca mais tornarão a ser brancas como foram um dia. Não teremos à quem recorrer para nos curar daquela gripe. E o que é ruim, ainda pode piorar. Afinal, nossos corações, feridos, não terão como ser tratados, simplesmente, com os seus curativos. Além disso, perceberemos quanto fomos tolos abdicando daquele carinho, daquele afago que, até então, nos envergonhara (e este não é um pretérito mais que perfeito, acredite).
A hora da partida será o rompimento mais brusco e doloroso do cordão umbilical. E hoje, longe da minha mãe, eu não consigo imaginar como seja viver longe de um filho e pensar como o senso comum, que diz, friamente, que cria-se os filhos para o mundo. O que restará serão as lembranças dos momentos que juntos dividimos e das peculiaridades – que, na verdade, são as lembranças mais intensas e freqüentes -. Como das vezes em que assistíamos aos programas de TV, até altas horas, enquanto a casa inteira já estava dormindo. Ou de quando eu ocupava lugar do meu pai, na cama, quando ele saía para suas viagens de trabalho. De quando íamos ao supermercado e comprávamos tudo o que tínhamos – e o que não tínhamos – direito.
É, mãe... Seu caçulinha cresceu. E a solidão, longe de você, é tanta que posso perceber que, sem você, eu não sou nada. Mas vou tentando sobreviver mesmo assim. Aquilo tudo que você me falou sobre saber em quem confiar, a ter dignidade e honestidade acima de tudo, que devo arriscar, ter coragem, respeitar os mais velhos; posso te dizer que sei a importância de tudo isso em minha vida e, por mais que eu estude a minha vida inteira, faculdade alguma fornecerá tamanha aprendizagem.
Por fim, mãe, só posso pedir desculpas pelos momentos em que te fiz perder a paciência e, tudo o que posso fazer para retribuir o seu amor é dando o meu em troca. Eu amo muito você. Assim, encerro a minha homenagem, desejando-lhe FELIZ DIA DAS MÃES com um trecho da música Mãe, dos The Fevers.
“Eu me lembro, quando eu parti, dos teus olhinhos, vi uma lágrima cair. Se você quiser me ver e a saudade aumentar, MÃE, eu aqui estarei” TE AMO!
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