Bruno, o Nuno

[parte II]
                Desconsolados com a perda do amigo, o grupo de amigos, agora com quatro elementos, deu continuidade à vida. Viver o luto de um amigo como Nuno foi a pior dor que já puderam experimentar. No enterro do jovem, Isabela, Marcelo, Mariana e Ítalo vestiram o branco, ao invés do preto, para simbolizar a paz que Nuno transmitia.
                Teriam muitos momentos para serem compartilhados. Mas a ausência que Nuno deixou cavou um buraco no coração de seus amigos. Deixou um vazio tão grande que, a todo o momento, Nuno era lembrado, fosse por uma música, uma paisagem, enfim... Os quatro enfrentavam uma batalha diária: convencer-se de que Nuno não estava mais entre eles e que, fizessem o que fosse, não o teriam de volta.
                Chegou o dia da formatura.  Nuno seria o orador. Depois de revelar sua paixão por Mariana, a turma achou conveniente e elegeu a moça para ocupar aquele espaço na cerimônia. Assim que chamaram Mariana para fazer uso da palavra, uma imensa caricatura de Nuno foi exposta no telão. E, então, Mariana, emocionadíssima, começou a falar:
                - Hoje é um dia especial em nossas vidas. Estamos concretizando um sonho e finalizando uma etapa. Está sendo uma noite linda, indiscutivelmente, mas poderia ser melhor. Há três meses, o destino nos pregou uma peça, um golpe fatal que arrancou um ser tão querido em nossas vidas, o Nuno. Este lugar que ocupo hoje era, por direito, dele. Por isso, jamais poderei substituí-lo. Assim, vou ler a carta que ele me entregou, minutos antes de nos dizer “adeus”.
                Os colegas, que já estavam emocionados, arrepiaram-se. Não sabiam da existência da tal carta escrita por Nuno e isso os deixou ainda mais curiosos. Mariana começou a ler a carta serenamente:
                “E aí, campeões, como têm passado? Espero que estejam felizes, assim como eu devo estar. É difícil falar sobre o futuro. Tantas coisas podem acontecer e, de repente, mudar a história de qualquer pessoa. Eu pensei em dizer tanta coisa... Dizer que vivemos tantos momentos inesquecíveis, que vocês foram importantes em minha vida, que jamais os esquecerei, que foi tudo lindo. Mas, hoje, eu sei que a vida já me tirou esse momento de estar aí com vocês, e, por isso, preciso – e sinto-me na obrigação de – passar algumas dicas e recomendações à vocês: aproveitem a vida, porque, querendo ou não, nunca saberemos o que nos acontecerá amanhã. Amem – este é o único sentimento que morreremos sem entendê-lo, mas jurando tê-lo vivido. Despertem um sorriso nos outros. Isso fará com que te percebam e jamais o esquecerão por isso, ou seja, marque, positivamente, a vida das pessoas. Divirtam-se, porque ser totalmente sério envelhece. Arrisquem-se: vocês nunca terão nada a perder. Desafiem-se! Assim, cometerão alguns erros, inevitavelmente, mas se tornarão maduros e prontos para enfrentar a vida.
                A gente não está na vida de passagem. E, infelizmente, só temos uma oportunidade de conceber essa dádiva. Palavras de quem entende muito bem isso. É, campeões, a hora é agora e eu acredito em vocês. Sonhem, mas sonhem alto, porque o pensamento tem uma força indomável.
                Bom, quanto à mim, espero que ainda não tenham se esquecido. Assim como vocês, sentirei saudades. Mas, um dia, tudo termina. E entendemos que o ‘pra sempre’ é uma utopia. Quem sabe, dia desses, havemos de nos encontrar. Passaremos a conhecer um mundo cheio de anjos. Compreenderemos nossa missão e, então, aceitaremos, com maior facilidade, alguns contratempos que a vida não explica. Fica aqui o abraço daquele que foi um ‘mundante’, mas que aproveitou as oportunidades na mesma busca de qualquer ser humano: a felicidade.
                Nuno”.
                A emoção havia tomado conta do público todo. Mariana foi de encontro à Isabela, Ítalo e Marcelo. Juntos, os quatro olharam para uma das elegantes sacadas daquele luxuoso auditório e, pra a surpresa deles, viram Nuno, sorrindo. Ele estava inteiramente vestido de branco, envolto a uma áurea azul e começou a cantar: “Qualquer dia, amigo eu volto a te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”.
                Escorreu-lhes uma lágrima sobre suas faces.

                FIM

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