Pra quando eu morrer

Nunca escondi que meu mais recôndito instinto do meu ser tem uma curiosidade pela morte. Na verdade, sinto um prazer enorme em falar sobre a morte, em saber o que acontece depois que estamos livres disso. Pra quem me conhece bem mais do que essas mal traçadas linhas, sabe que eu mal queria existir. Mas, já que a gente não escolhe, o jeito é encarar e esperar os anos passarem e chegar a minha hora.
                Mas, enquanto esse dia não chega – e não que eu esteja esperando ansiosamente por ele – fico pensando no que acontece assim que fechamos os olhos pela última vez. Imaginar é possível e, por isso, acredito na idéia de que partimos para um segundo plano. A vida nova, a segunda vida que chamam. Lá, podemos, com a ajuda do Pai, observar tudo o que acontece aqui em baixo, avaliar, corrigir e fazer justiça.
                Só que não quero falar de espiritualidade. Minha proposta, hoje, é refletir sobre como será o dia que meu cronômetro zerar. Será que os outros vão rir, chorar ou agradecer por terem se livrado de mim? Será que vou ter realizado tudo aquilo que um dia eu tinha sonhado? Será que alguém preparará alguma homenagem de honras à minha pessoa? E o que é pior: será que alguém se corroerá de arrependimento por não ter aceitado o amor que um dia eu devotei?
                Essas dúvidas são tão traidoras que me corre um calafrio na espinha ao indagá-las. Mas, vou fazer os meus pedidos, já que não sei o que o futuro me reserva.
                Por favor, chorem. Talvez o choro simbolize a melhor expressão de uma perda. Não que eu signifique alguma coisa, mas acho bonito. Até porque, até onde sei, nunca ninguém chorou por minha causa. Nem por ódio nem por alegria. Quando chorar, eu não poderei mais enxugar as suas lágrimas, mas terão outros que farão isso por mim.
                Se eu partir antes dos meus pais, por favor, dêem toda a atenção e solidariedade à eles. Na certa, eles não entenderão o porquê Deus quis me ter por perto dEle. Eles precisarão de qualquer afago e, com certeza, àqueles que forem meus amigos, terão maior consideração por eles...
                Falando em amigos... a gente viveu tanta coisa bonita, né? Pois tenho alguns pedidos à lhes fazer: peguem os meus livros e montem uma pequena biblioteca; nesse mesmo espaço, coloquem uma mesa para estudos e, na decoração, papéis de parede com os meus textos; depois que a cerimônia do meu velório terminar, se reúnam em algum lugar qualquer, mas que represente a nossa história e revejam as nossas fotos, riem, relembrem momentos marcantes que vivemos juntos, dos risos que provoquei, dos temores que causei.
                Aos corações que cativei e aos que se sentiram obrigados a conviver comigo, sinto em ter roubado o tempo de cada um e, por isso, é que minha vontade de nem ter existo é tão grande. Àquelas que tiveram, por algum período, um espaço maior no meu coração: algumas ainda tenho saudade, algumas tenho repugnância, outras ainda nutro um carinho especial; só queria saber, antes de partir, se, no fundo, no fundo, consegui despertar um sentimento de “quase-envolvimento”. Aos que se incomodaram muito com a minha presença, lamento: nem eu tenho culpa de ter nascido.
                E, quanto à mim, sentir-me-ei livre, de uma vez por todas, daquilo que não deveria nem ter acontecido. E, onde quer que eu esteja, sentirei a falta de cada um, mais do que eu já sinto.

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