Júlia é quem eu chamo de uma “suposta conhecida”. E, outro dia, me
encontrei com ela enquanto a ouvia queixar-se para um outro “suposto conhecido”
– que vou batizá-lo de Peixoto – de suas constantes desilusões amorosas. Entre
um conselho e outro, Peixoto tentava, incessantemente, fazer com que Júlia
entendesse que somos capazes de amar inúmeras vezes e cada uma diferente da outra
e que o mundo, atualmente, é muito mais prático do que emocional. Inconformada
com tanta insensibilidade, Júlia pôs-se a indagar Peixoto: se ele tinha, por
hábito, dizer “eu te amo” para a esposa: por exemplo. Peixoto, sincero, disse
que não e que, apesar de manter um relacionamento duradouro com a parceira, tem
a consciência de que o amor que sentia no início do casamento não é o mesmo de
hoje e que o amor, com o decorrer do tempo, amorna e transforma-se mais em
amizade do que em amor, propriamente.
Júlia quase
enlouqueceu. Achou impressionante tanta “frieza” por parte de Peixoto e
perguntou: “Então, como é possível se apaixonar sem se apegar?”. Eu, que, por enquanto, só assistia a aquele
show de experiência de Peixoto, resolvi esclarecer as idéias de Júlia.
Comecei dizendo
que é muito bom estar apaixonado, viver em um mundinho colorido, sentir
calafrios ao ver a pessoa amada, ter o coração batendo mais forte. Mas que
fique bem claro: só até os 15 anos de idade, por favor! Depois, não se há mais
tempo a perder com joguinhos de amor. Os planos, depois dessa fase, precisam
ser colocados em prática e não deve-se prender àquilo que nos escraviza e nos
impede de seguir em frente. E, por fim, me impressionei comigo mesmo quando
filosofei: “Não existe perfeição. Existe uma idealização da perfeição”.
Claro! Essa é a
chave dos grandes segredos. Esperamos um tempão – geralmente, desperdiçado –
procurando alguém que atinja nossas expectativas. (Parêntesis machista:
mulheres são campeãs nessa história) Alta? Confere! Inteligente? Confere!
Classe social desejada? Confere! E ai se o formulário não corresponder ou se
algum item não for preenchido conforme o esperado: cabeças vão rolar!
É por isso que,
hoje, eu não me preocupo mais em encontrar aquela que preencha todos os
pré-requisitos. A partir do momento que o coração fala mais alto, não há o que
se perder.
É justamente por
não existir a perfeição que estamos propensos a cometer mais erros. Óbvio que,
nesses casos, haverão algumas frustrações. Mas, é justamente nesse ponto que
pecamos: é preciso encarar um relacionamento como mais uma tentativa para, pelo
menos no amor, encontrar a felicidade. E, se você encontra a felicidade, ela já
é a própria perfeição! Porque se “TENTARMOS” ser felizes, teremos mais chances
de atingirmos nosso “ideal de perfeição”.
Constantemente,
nos apavoramos quando recebemos a notícia de que casais, com mais de 20 ou 30
anos de compromisso, se separam. Há sempre muita especulação, boatos dão conta
de que haveria de ter algum par de chifres que pudesse explicar. Mas, não!
Acontece que, simplesmente, enquanto viveram juntos foram felizes, e em algum
momento – o da separação, no caso – enxergaram que aquela relação já não se
enquadrava nos “ideais de perfeição” de cada um. Pode parecer simplista demais,
mas eu prefiro chamar de ÓBVIO demais! Vai ver é por isso que haja tanto sexo
casual nos dias de hoje. E acho até mais conveniente a proposta do “Vamos
tentar?” do que “Casa Comigo?”.
Luis Fernando
Veríssimo que disse que é a “pessoa errada” que faz você perder a cabeça.
(Entende-se por pessoa errada: a que não chega no horário combinado, não te
procura nos momentos certos só para que o reencontro seja ainda melhor.) E é
pelo simples fato de que a pessoa “supostamente” perfeita vai te fazer enjoar do
seu jeito, da sua presença – da sua perfeição, realmente – que é melhor
satisfazer-se com os “quase-perfeitos” e que se encaixem naqueles itens que
você espera e que, por mais que não seja preenchido todo o catálogo,
correspondem de alguma maneira com as suas expectativas.
Senhoras e
senhoras – e Júlia, principalmente -, entendam: não percamos tempo esperando
príncipe encantado ou a mulher dos sonhos. Contentemo-nos com aqueles se
propuseram a tentar nos fazer felizes. Saibamos compreender que, por mais que
seja muito bom estar envolvido de cabeça com uma pessoa ou um relacionamento, é
preciso ter uma visão mais realista que romantizada. A vida exige que pensemos
mais praticamente e, infelizmente, é muito triste acreditar que nada dure para
sempre e que – que triste! – nada é perfeito. Encontrar os defeitos,
reconhecê-los e tentar torná-los “aceitáveis” é uma grande fonte de virtudes. E
esse é o gostoso: conviver com os espinhos próximos que uma relação muito
envolvente pode causar. Claro, desde que estes não se deixem por prevalecer. E,
concluindo: já que a perfeição não existe, a simplicidade de um
“quase-perfeito” é que nos chama a atenção e, por isso, nos vemos apaixonando e
desapaixonando constantemente. Essa é a sutil explicação por nos apaixonarmos
pelo primeiro par de olhos que se aparece na nossa frente: ele não é o galã de
novela e ela não está entre as 100 mais sexy da VIP. Eles, simplesmente, sabem
nos fazer felizes – pelo menos por enquanto, enquanto corresponderam aos nossos
“ideais de perfeição”.
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