Aquele era um grupo de amigos que se encontrava todo fim de semana. Suas festas eram divertidas e, se não tinham o que comemorar, criavam um motivo. Além disso, eram colegas. Estudaram desde pequenos juntos e estavam cursando o último ano do colegial. Dos cinco amigos, Nuno era o mais adorado pelos outros: estava sempre sorrindo, disposto a ajudá-los; topava qualquer diversão para que os cinco saíssem da rotina; animava as festinhas – ainda mais depois de uns goles – com seu jeito alegre e espontâneo.
Foi então que descobriram que Nuno era portador de uma doença terminal gravíssima. O restante do grupo, no início, ficou extremamente decepcionado. Na verdade, não sabiam como lidar com essa nova situação. Num primeiro instante, confortaram o menino, pois era o mínimo que poderiam fazer.
Na fase inicial da doença, Nuno tentou seguir sua vida normalmente. Freqüentava a escola, saía à noite com os amigos e até namorava. Insistia em dizer que não se deixaria abater por aquela doença e acreditava que Deus o salvaria, tamanho o poder e a crença na sua fé. Lamentavelmente, Nuno não sabia que esta doença tirar-lhe-ia a vida antes do que ele imaginava.
A doença se agravou e Nuno teve de ser hospitalizado. Os laudos médicos mostravam que as chances de recuperação eram nulas e que Nuno não sobreviveria os próximos dois meses.
Nesses dois meses de vida que os médicos asseguraram à Nuno, o grupo de amigos montou um verdadeiro acampamento no hospital: assistiam à filmes, jogavam dama, xadrez e dominó – a especialidade de Nuno – e, quando Marcelo, um dos cinco amigos, levava o violão, entravam madrugada à dentro, chegando a ser recriminados pelo corpo de funcionários do local. Quando cantavam Cassia Eller, Nuno se deliciava com a poesia da cantora. Mas, agora, ele não sentia o mesmo prazer, especialmente quando ouvia: “Se lembra quando a gente chegou, um dia, acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acabar?”. Da última vez que ouviu o trecho, Nuno chorou como se sentisse a proximidade do fim.
Foi então que, uma semana depois, Nuno teve seu quadro agravado e, como nunca antes em sua vida, viu-se só. Naquela cinzenta manhã de setembro, seus amigos estavam no colégio quando ele sentiu que sua hora estava chegando. Chamou-os.
Assim que chegaram, os amigos perceberam que Nuno estava irreconhecível: havia perdido 15kg por conta do tratamento, além da palidez e do cabelo que havia perdido.
Pediu para que se aproximassem. Enquanto chegavam mais perto de Nuno, Isabela e Mariana já estavam chorando. Até mesmo Ítalo – o mais turrão do grupo – já estava com os olhos embaçados por conta das lágrimas. Marcelo, abraçado ao violão, quis disfarçar sua tristeza, mas Nuno não deixou. Abriu seu coração e disse:
- Não sei se vocês se lembram, mas a primeira música que o Marcelo tirou no violão foi: “Mas você lembra, você vai lembrar de mim, que o nosso amor valeu a pena. Lembra, é o nosso final feliz, você vai lembrar de mim” – disse cantarolando lentamente com a voz embargada (de emoção e por suas condições), sendo acompanhado pelos amigos -. Eu lembro bem... Eu dividi com vocês grandes momentos da minha vida: do meu primeiro beijo ao meu primeiro porre; os momentos de tensões nas vésperas de provas e minhas lamentações com as notas; foram vocês que aturaram minhas piadas mais sem graça e que riram só para que eu não me sentisse um perfeito idiota. Foram vocês que me deram forças quando perdi meu pai e que estiveram ao meu lado comemorando as minhas conquistas. Um dia, fizemos um pacto de que jamais nos abandonaríamos e, hoje, me sinto um traidor por quebrar essa promessa. Mas prometo voltar para contar como é depois daqui...
Nuno estava tão fraco que fez a primeira pausa.
Os outros tentaram mudar o rumo da conversa, mas Nuno não deixou. Precisava falar. E continuou.
- Por isso, meus amigos, eu tentei, eu lutei. Mas eu não consegui. Por favor, me perdoem por tudo de errado que eu fiz e que, sem querer, os magoei. Aonde quer que eu vá, vou lembrar de vocês eternamente.
Dito isto, Nuno pediu para que cada um se aproximasse dele, um de cada vez. Quando chegavam à beira do seu leito, Nuno beijava a testa de seus amigos, que o abraçavam chorando. Pediu para que Mariana fosse a última e, assim que lhe beijou a testa, confessou: “Você foi, é e sempre será o grande amor da minha vida”. A menina pôs-se a chorar ainda mais.
Inevitavelmente, Nuno deixou escorrer uma lágrima e cantou pausadamente: “Esse foi um beijo de despedida que se dá uma vez só na vida”.
Sorrindo, dormiu para nunca mais acordar.
CONTINUA...
1 comentários:
Que história tocante, não tem como não se comover.
É real? ... tá caprichando na escrita né amigo? Parabéns, sempre gosto de ler o que você escreve!
Postar um comentário