Considerações sobre a lua

Outro dia fiquei intrigado com a natureza da lua que quase me apaixonei por ela, tamanha proximidade temos um do outro. Comecei a pensar o porquê de nos encantarmos por ela, porque possui o brilho que tem e instiguei-me ainda mais quando refleti sobre sua singularidade.
                A noite só fica completa quando ela apontar. Mesmo durante o dia, ela já está aposta, num lugar muito singelo, verdade, que é para não ofuscar o brilho do sol. Portanto, tratando a si mesma com muita humildade.
                Detentora dos segredos, amante dos apaixonados, confidente dos aflitos. Talvez seja um dos únicos seres que reconheça o tamanho da sua grandiosidade. Grandiosidade, esta, um tanto inconstante, já que passa por algumas mutações. Cada fase, um novo mistério que desperta a curiosidade do seu mais modesto admirador.
                Inspiração aos poetas, companhia aos solitários, clarão das madrugadas. Fico a pensar, quantos segredos já lhe foram confidenciados, quantos casos de amor já iluminou e quantas lágrimas ajudou a enxugar. Quanta fantasia desperta nos corações dos mais humildes e quanto deboche já alegrou os assuntos dos mais apossados.
                Raramente, ela deixa que a terra a encubra. Talvez pela vergonha que sente dos feitos da humanidade. O eclipse é a forma mais sutil que a lua encontrou para protestar contra a violência, contra o preconceito, contra corrupção. Mesmo o fenômeno sendo notícia e motivo de admiração, ninguém para pra pensar o porquê a lua deixa que um outro ser domine sua beleza, sua claridade, seu efeito. Somente por grandes decepções é que deixamos nosso brilho se ofuscar. Só nos tornamos apáticos por que não conseguimos, a todo tempo, manter a postura de durões. É chegada a hora de nos prostrarmos. Mas, nessas horas, quando estamos precisando de um apoio, os outros acabam nos vendo de uma maneira contrária e, conseqüentemente, nos deixam à mercê de um carinho.
                E é assim, sozinhos, que tenho a visão mais precisa da lua. Tão longe, tão solitária – mesmo com a presença das estrelas – é que ela vive o seu mundo. É fantasiar demais, mas será mesmo que a lua, com toda sua pose de diva, não tem suas fraquezas? Será mesmo, que no mais íntimo de seus sentimentos, a lua não se sente cansada de ser tão sozinha? De não ter alguém pra amar, de não poder dividir suas opiniões, seus próprios segredos.
É, lua, por essas e outras que eu sou capaz de me apaixonar por você. Quem sabe, juntos, teríamos a nossa própria lenda a ser escrita. É por essa solidão que nos identificamos. Não temos a quem partilhar nossas aventuras nem sequer praticar tais aventuras. Não temos alguém para chamar de “melhor” amigo, apesar de termos estrelas maravilhosas a nossa volta. Não temos quem nos diga: “Calma, logo passa!” ou, melhor: “Calma, eu tenho a solução!”. E, o que seria melhor ainda: “Calma, eu sou a sua solução!”. Mas, apesar dessa solidão tão grande, temos a sorte de sermos tão grande, por vezes, que nossa presença, além de agradar muitos, ser cupido para outros, também permite com que sintam a nossa existência.
É, lua, de fato, você foi feita pra mim...

                               arquivo pessoal

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